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domingo, 21 de dezembro de 2014






 A Venezuela vende 80% de seu Petróleo aos EUA. Apesar disso, o caudilhinho com bigode anacrônico vive cuspindo diatribes contra americanos. Parece que esse fato nunca tirou o sono  dos vizinhos.

E o rato ameaçando o elefante. Agora a Venezuela está quebrada porque Seu único PRODUTO de exportação, o petróleo, caiu de preço. Sabendo disso, os dirigentes cubanos, que correm o risco de perder o sustento de Maduro, como já perderam da ex-União Soviética, aceitam negociar com a pátria do capitalismo. 


Um povo pode ser subjugado enquanto o regime lhe fornece condições mínimas de sobrevivência. Se não, vomita seus governantes. Maduro sifu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014




MILITARES, LULA, bolsonaro e o canto da sereia

        Era início de 1964. Termo desconhecido para a época, “estava tudo dominado”. Os generais subservientes a Washington dariam o golpe, derrubando o presidente João Goulart. Ele era político que causava profunda irritação aos americanos, por causa de seu discurso nacionalista. O governo americano sempre foi muito cioso de seus empreendimentos além-fronteiras.

        Havia um “plano B”. Se os generais falhassem, a sétima frota estaria de prontidão nas costas brasileiras e, aí, a invasão dos marines seria inevitável. De qualquer forma, a frágil democracia brasileira seria derrubada.   

Provavelmente, se os americanos tivessem nos invadido, o primeiro ditador não seria Castelo Branco e, sim, Lincoln Gordon.

        Não houve necessidade de invasão. Os militares brasileiros fizeram o serviço sujo. Não foi difícil. Eles tinham sido cooptados desde o fim da segunda guerra mundial. Havia, é claro, o perigo comunista. Bastava compará-lo ao nazista para que nossos homens de verde tivessem urticária. Naturalmente, certo apoio financeiro foi necessário para o convencimento dos líderes revolucionários.

         João Goulart não era comunista. Pelo contrário, pertencia à classe conservadora, a elite do país. Era um dos maiores latifundiários do Rio Grande do Sul. Certamente um oportunista que verificou haver forte reação do país ao capital estrangeiro e transformou isso em discurso político.·.
       
        O primeiro militar presidente foi o Mal. Castelo Branco. Sua admiração ao “american way of life” era total.

        Castelo Branco sabia que a presença dos militares no comando do país seria desastrosa, principalmente para eles mesmos. Tomou posse prometendo eleições gerais para o próximo ano (1965).

        Não conseguiu fazer as eleições e acabou morrendo misteriosamente. A sedução do poder é uma força fortíssima, quase irresistível. A ditadura militar durou 21 anos e os militares somente entregaram o comando quando o país estava quebrado, sem apoio popular e a situação dos quartéis era anárquica.

        Isso é história. Vivemos, desde 1985, em uma democracia, talvez menos frágil que a anterior.

        Mas a história se repete. Os atuais detentores do poder também provaram suas delícias e também querem se eternizar no comando do país. O discurso não é diferente do de João Goulart, o plano é de uma república sindicalista. O poder é uma amante irresistível. As promessas precisaram ser douradas com acenos de justiça social, para serem palatáveis. Foi implantado o bolsa família, virtuoso em sua gênese, mas que fraqueja se o país não se modernizar. Só que a modernização não pode ser feita, retira poder.

        Dizem que os extremos se tocam. Os fins últimos dos militares e dos sindicalistas foi a tomada do poder. A prova disto é que Lula é hoje um feliz representante das elites.

        Que Bolsonaro tem a ver com isso? O capitão Bolsonaro, ao contrário do que aparenta sua figura pública, é uma pessoa inteligente, calculista e tem profundos conhecimentos de tática e estratégia. Ele também quer o poder. Quer ser presidente da república. Se possível, ainda em 2018. Embora pregue golpe de Estado, almeja chegar ao governo federal nos braços do povo. Tal como Hugo Chaves, que adquiriu experiência na caserna e foi eleito presidente da Venezuela depois de fracassada tentativa golpista.

        O eleitorado de Bolsonaro é a classe média, incluída a classe média oriunda da pobreza através do bolsa família. Essa classe é conservadora e almeja estabilidade e segurança. Está assustada com a violência epidêmica que grassa no país. Estranhamente, nenhum dos candidatos a presidente, nesta última eleição, apresentou um plano consistente para reduzir a criminalidade no país.

        Bolsonaro vai basear sua plataforma política justamente em um plano com este objetivo, seja ele qual for. Também vai bater muito no PT, porque aproveitará o desgaste do partido, com 18 anos de governo.

        Militares, sindicalistas, Bolsonaro todos tem o mesmo objetivo. O canto da sereia. Deus nos proteja.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014



Um sorriso que chora
                                                                                             
                                                                            Maria Avelina Fuhro Gastal

                       

                  
                            Há muito se perderam nas palavras. Do encontro entre o dito e o escutado restam cicatrizes e feridas abertas.

                            Aos poucos, as vozes deram vez ao silêncio. Na tentativa de não ferir, nem ser ferido, calaram seus temores e, junto com eles, o amor perdeu sua vez.

                            No vazio produzido pelo não-dito, a intimidade foi sufocada. Hoje tateiam-se como dois estranhos.

                            Ela manuseia as roupas como se fosse um ritual. Coloca em cada dobra o seu ressentimento e amargura. Na perfeição da peça, a tentativa de reorganizar-se. Não tem urgência, mas está determinada. Quer deixar ali toda a dor e levar só a coragem para recomeçar.

                            Não está sendo impulsiva. Apenas sente-se vencida pelo cansaço e pela desesperança. Quer manter entre eles um pouco do afeto que os uniu.

                            O dia se desfez nas dobraduras e a noite já espia por entre as frestas.

                            Pensou em deixar um bilhete. Não achou digno. Apesar de tudo, eles merecem mais. Quer um último ato respeitoso e definitivo.

                            A fraca luz do abajur ilumina o ambiente com a suavidade que o momento requer. Ela se deixa abandonar na poltrona, atenta aos sons que vêm da rua.

                            O estalar do elevador e o tilintar das chaves a impulsionam. De um salto, levanta-se, alisando a saia, a blusa e os cabelos. Qualquer desalinho seu será imperdoável. Não pode enfraquecer, nem perder-se agora.

                            Ao mesmo tempo em que ele abre a porta e entra, ela pega a mala e se dirige para a saída. Seus olhos se cruzam. Os dele se voltam para a mão dela e retornam, em tom de dúvida (ou será de desespero?) para o seu rosto.

                            Com um sorriso que chora, ela toca suavemente o rosto dele e sai. Ele se vira a tempo de buscar a mão dela. Segura-a com um afeto há muito adormecido. Ela solta a mala, envolve aquela mão que tantas vezes a fez estremecer ao toque, roça os lábios levemente no seu dorso e a solta. Pega a mala, entra no elevador e parte.
                  

domingo, 30 de novembro de 2014




O Imperativo da Inclusão


Além de ser um problema moral, a exclusão social custa caro. Para combatê-la, é preciso mirar alvos claros, ter financiamento adequado e dados precisos


Grandes avanços foram feitos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) desde que eles foram definidos em 2000. Mas, infelizmente, muitos países ainda estão muito longe de atingi-los. Mesmo as nações que fizeram um progresso substancial, alguns grupos – incluindo povos indígenas, moradores de favelas e áreas remotas, minorias religiosas e sexuais e pessoas com deficiência –  ainda são constantemente excluídos. Como apontou um relatório recente do Banco Mundial, entender o porquê é essencial para garantir que esforços futuros para o desenvolvimento sejam mais eficientes e inclusivos.
A exclusão econômica e social não é apenas um problema moral, mas também é caríssima. Um relatório do Banco Mundial de 2010 sobre a exclusão dos ciganos dos sistemas econômicos e educacionais na Europa estimava uma perda de produtividade de pelo menos 172 milhões de dólares na Sérvia, 273 milhões de dólares na República Tcheca e 600 milhões de dólares na Romênia (calculada utilizando as taxas de câmbio de abril de 2010).
Essas perdas refletem as consequências de longo alcance da exclusão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial descobriram que crianças com deficiência têm menos chances de ingressar em escolas do que os seus pares não deficientes – e que entre elas há um índice maior de evasão escolar. Na Indonésia, há uma discrepância de 60% entre crianças com e sem deficiências que frequentam o ensino fundamental e uma diferença de 58% no ensino médio. O sentimento resultante da exclusão e da alienação pode enfraquecer a integração social e até mesmo levar à agitação e conflitos.

A agenda nova de Desenvolvimento Que Ira suceder OS ODM reflete Uma Consciência Mais aguda da importancia da Inclusão crucial. Sem Seu Relatório Sobre a agenda Pós-2015, o Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes enfatizou a Inclusão, declarando que "nenhuma à Pessoa - independentemente de etnia, género, Localização Geográfica, Deficiência, Raça OU Outra Condição - devem SER negados OS DIREITOS Humanos Universais e Oportunidades Econômicas Básicas ". A agenda nova de Desenvolvimento, Afirma o Documento, DEVE "Acabar com a discriminação" e "enfrentar a Pobreza, Exclusão um eA Desigualdade".

Dado isto, não surpreende que a inclusão seja a pedra angular da ambiciosa nova proposta para os sucessores dos ODM, os Objetivos Sustentáveis Para o Desenvolvimento (OSD) – começando com o processo de seleção dos objetivos, em que os países em desenvolvimento têm sido protagonistas.

Atingir os objetivos para a inclusão social e econômica não será fácil. Os alvos devem ser bem definidos, mensuráveis, executáveis e amparados por monitoramento e avaliações eficientes, bem como por estruturas comuns de responsabilização. Além disso, deve ser criado um sistema para ajudar os países a transformar os objetivos globais acordados na Organização das Nações Unidas (ONU) em medidas concretas que se adaptem às suas circunstâncias econômicas e normas sociais particulares.

Para atingir este fim, este ano o governo mexicano sediou uma série de seminários que reuniram representantes governamentais, agências da ONU, bancos de desenvolvimento multilaterais e o meio acadêmico para compartilhar visões e as melhores práticas e metodologias para implementar, avaliar e monitorar objetivos inclusivos e sustentáveis. Essas discussões se basearam no compromisso da comunidade internacional em enfrentar as causas estruturais da pobreza, desigualdade e degradação ambiental.

A inclusão social e econômica está no centro dos objetivos do grupo do Banco Mundial de erradicação da pobreza extrema e promoção da prosperidade partilhada. Afinal de contas, esses objetivos não podem ser atingidos a menos que o investimento em desenvolvimento beneficie a todos. Garantir isso requer o enfoque em grupos que têm sido repetidamente marginalizados. É por isso que o grupo do Banco Mundial escolheu a igualdade como principal tema da reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) deste ano.

Políticas e programas que buscam a inclusão social não necessariamente fazem mais; em vez disso, fazem as coisas de outro jeito. Com essa abordagem, a África do Sul, saindo de uma condição de segregação institucionalizada, fez um progresso considerável na direção do ideal de uma “nação arco-íris” em apenas duas décadas.

De modo similar, Bangladesh avançou na questão da inclusão ampliando a participação no seu antes excludente sistema informal de justiça, o shalish. O Programa de Redução da Pobreza nas Montanhas do Norte, no Vietnã, criado para oferecer serviços sociais melhores e uma infraestrutura sustentável para os moradores pobres da região, demonstrou o papel crucial que os membros das comunidades de minorias étnicas podem ter nas iniciativas de desenvolvimento.

Mahmoud Mohieldin E o enviado especial do presidente do Banco Mundial Sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Maria Beatriz Orlando E Especialista Sênior em Desenvolvimento afazeres sociais Banco Mundial. 

(Tradução: Roseli Honório)
© Project Syndicate 2014
Veja 29/11/2014


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014






CRENDICES

Uma vez, resolvi defender a existência de Deus para meu analista, em plena sessão. Ele disse que minhas crendices não tinham espaço no tratamento. Fiquei muito ofendido. Ora, tratar meus sentimentos mais transcedentais como "crendices". Ele comparava-me com um adorador de religião africana, um praticante de saravá.

Nãe esqueco a cena e, agora, muitos anos depois, vejo como fui idiota e preconceituoso. Meu terapeuta estava certo, como sempre esteve certo em tudo que disse. Eu não tinha maturidade para entender certas coisas.

Crendice é aquilo que se crê. A crendice é a estrutura básica de tudo que é religião, da católica, à protestante, à muçulmana, espírita, etc. Também é a essência da ideologia. Dito assim, parece simplificação mas é  assim mesmo. Podemos substituir a palavra crendice ou crença por magia. É tudo a mesma coisa. Já li que o ato da oferenda, na missa católica, é ritual de magia branca. Pode ser.

A visão religiosa permeia grande parte de nossa vida. No Face, postaram que um copo d'água antes de dormir evita AVC. Esta é uma interpretação religiosa, tão religiosa como aquela que pede para curtir a imagem de Nossa Senhora. Isso também vale para muito posicionamento político.

Vejam bem, não sou contra religião, como não sou contra a política. Essa são uma posturas individuais e deve ser respeitadas, mas penso que essas coisas precisam ser tratadas friamente, baseadas em em experimentação científica. Precisamos ter consciência disso para evitar muito sofrimento.

Se houvesse essa consciência em nível mundial não teríamos hoje o genocídio de cristãos por muçulmanos radicais. Afinal ambas as religiões tem o mesmo princípio,   dependem da fé para existir.

domingo, 23 de novembro de 2014





BONS TEMPOS, HEIN?

Os anos setenta foram o máximo para quem queria ganhar dinheiro. O país estava encharcado de empréstimos dos árabes. Eles resolveram cobrar pelo petróleo e ficaram riquíssimos. As obras pipocavam em toda  a parte. Como não  havia uma  estrutura jurídica de verdade no Brasil (estávamos sob a égide do AI-5) quem quisesse ganhar dinheiro com obras públicas estava  feito.

O esquema funcionava assim: o cargos chaves do governo eram ocupados por oficiais de  alta  patente. Esses militares tinham limitado  seu orçamento familiar, porque havia um viés moralista nos altos  escalões  do governo. Então as grandes empreiteiras (e até as pequenas) mandavam convite para o general ou coronel, que cuidava do dinheiro público, para grandes festanças, em locais chiques.

Essas festas, mesmo para quem tinha convite, eram caras. Exigiam roupas, sapatos, cabelereiros e mesmo automóveis melhores. Logo, o militar, pressionado pelos  novo status da família, estava enforcado financeiramente. Era aí que entrava o representante da empresa, o doleiro da época.

Trabalhei, como arquiteto, em uma organização federal. Logo ao chegar, me mandaram receber uma obra bem grande. O empreiteiro, muito simpático, me acompanhou. Disse que  era filho de um general muito influente no governo militar, ou "revolução" como era chamada. Falou que tinha se formado em engenharia  metalúrgica, mas viu que  se ganhava dinheiro com obras públicas.

Montou uma empreiteira, cuja organização espacial era uma  pasta zero zero sete. O telefone da empresa era o do  açougueiro vizinho. Logo ganhou uma obra enorme.

Chegamos ao local. O prédio construído era um monstrengo, era impossível enumerar o que estava certo, tal era a tortura das paredes e o mau acabamento de pisos,  esquadrias, etc.

Verifiquei que para receber a obra corretamente, ela teria que  ser posta abaixo, o que era  inviável, tendo em vista que já tinham sido aprovadas as etapas anteriores. Senti a maldade de meus colegas. Lembrei, também, a importante informação  de que o pai era general, destacado membro do governo. Recebi a obra sem nenhuma restrição. Era uma escola e, mais  tarde, seu diretor faria pesadas queixas da qualidade do prédio.

O empreiteiro, jovem como eu, ficou muito agradecido e como amigo, acompanhei sua meteórica  carreira. Em pouco tempo, seus prédios foram ficando  razoáveis. Ele comprou uma  mansão na  zona sul e  uma  mercedes prateada.

Contou-me, uma ocasião que, acidentalmente, ouviu um telefonema de um membro do  sindicato da construção civil em se  combinava o superfaturamente de uma obra, com a licitação arranjada. Ficou sabendo do menor valor e, espertamente, entrou no certame com um preço um pouquinho menor, ganhando a licitação. Seus colegas ficaram furiosos com ele, mas, como era  filho do general, ficou por isso mesmo.

Os membros da organização em que atuava, senhores respeitáveis, a primeira coisa que faziam ao  receber o cargo, era colocar sua amante no mesmo emprego, para controlá-la e  para que fosse paga com o meu, o seu, imposto. Houve um presidente da organização que não  satisfeito de colocar duas  amantes,  empregou marido de uma delas, que era açougueiro. Foi o caso, exemplar, de um corno remunerado.

Como a inflação era alta, todos que podiam, guardavam seu dinheiro no over night, que era uma maneira de ganhar dinheiro com a inflação. Pois esses senhores respeitáveis desviavam enormes quantias  do governo para suas contas pessoais e faturavam no over night até o pagamento da  fatura.

Poderia denunciar a roubalheira, mas para quem? Não havia justiça, a imprensa era amordaçada. O resultado de uma denúncia seria a perda do emprego, com sorte. Sem sorte, o resultado poderia ser bem pior.

Esqueci de contar o que houve  com meu amigo empreiteiro. Reunia os amigos em uma mesa de bar para contar suas conquistas amorosas. Um dia, ao chegar em casa, pegou a esposa com um amante, na cama do casal. Vendeu tudo, menos  a mercedes e transferiu-se para a Bahia. Soube que fez o maior sucesso lá.

Hoje, vejo que aquele pessoal era mero aprendiz de feiticeiro.



BOSSA NOVA

Assisti, no youtube, algumas interpretações  de Márcio Faraco. São músicas lindas, muito românticas. Soube que seu parceiro é o também alegretense, Paulo Berquó Farias. 


Márcio Faraco mora na França e faz o maior sucesso lá. Seu forte é a bossa nova. 


Aliás, a bossa nova, o movimento musical mais importante do Brasil, é sucesso nos Estados Unidos, na Europa e até no oriente. Constantemente surgem novas melodias e novos arranjos de melodias clássicas, como as  de Tom Jobim, Vinícius e Carlos Lira. 


Quer ouvir bossa nova? Viaje. Aqui no Brasil ela não existe.

domingo, 19 de outubro de 2014




Ibirapuitã, um rio privatizado?


         Viajei a Alegrete por uns dias. Aproveitei para matar a saudade do rio Ibirapuitã, mais especificamente do trecho em que chamávamos de “Perau”, onde aprendi a nadar e também aprendi muitas coisas da vida.


         Visitei, então, o Perau. A primeira decepção, normal, ele era menor do que estava registrado em minha memória. Claro, cresci, o mundo muda suas proporções. A segunda, me deixou chateado. O Perau, abandonado, virou depósito de lixo a céu aberto. A terceira me deixou revoltado. As margens do Perau estão cercadas. Que  é isso?




O rio Ibirapuitã, um patrimônio da comunidade, está cercado, permitindo o acesso somente a alguns privilegiados.

         Lembrei-me, imediatamente, de alguns  rios que banham cidades conhecidas, como o Sena, em Paris, O Tâmisa, em Londres, o Tibre, em Roma, o Reno, na Alemanha. Todos são cartões postais, orgulho para seus habitantes. O rio Ibirapuitã fez o caminho inverso. Tornou-se vergonha para os habitantes de Alegrete e está sendo escondido, cercado.

         Bem, o rio poderia estar cercado apenas no Perau, que já seria uma pena. Segui, a pé, até um centro recreativo do Município. Alí, certamente, poderia apreciar a beleza e a elegância de meu rio. Aquele centro, abandonado, também, apenas com algumas crianças esforçando-se, com diligência, para destruir um prédio público, levava, também, a uma cerca.









Que tristeza. A administração pública faz uma avenida sem calçadas, esquecendo-se de seus pedestres, cadeirantes e ciclistas, com um centro recreativo que esnoba o que o local tem mais belo, o rio. Repito, que tristeza. A cidade não merece isto.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014




MUTANTES

           
Tem gente que parece ter nascida fora de época. Eles estariam bem centenas ou milhares de anos adiante.

Modestamente, eu tenho faro para identificá-los. Não que pertença à espécie, longe disso, mas os conheço quando vejo um. É pelo olhar penetrante, é pelo humor ferino, pela maneira antípoda de proceder. Sobretudo, pelo jeito doce no tratamento.

Alguns são ou foram famosos, como Albert Einstein, Steve Jobs, John Lennon ou Keith Richards. Alguns, famosos e mártires, como Jesus Cristo, Ghandi e Martin Luther King.

Outros, a maioria, leva a vida aos tropeções, ao conviverem com uma sociedade que, efetivamente, não os entende. Cito um deles, meu amigo, cujo mente era tão rápida que falava gaguejando, como se a língua não conseguisse acompanhar seu raciocínio. Dizia: - Sou Gago, mas não sou gago de nascença, só comecei a gaguejar quando comecei a falar.

Esses aparentemente não são adequados para a vida, essa vida. Diria eu que a vida não é adequada para eles. De uma maneira poética, costumam morrer de infarto do miocárdio.

Posso dizer que essas pessoas são mutantes, elas vislumbraram outro mundo, mais moderno, mais justo. Infelizmente, o mundo não as reconhece, como eu as reconheço.

Alegrete, por essas brincadeiras do destino, tem ou teve vários desses mutantes. Não é a toa que a cidade sediou, há algum tempo, um congresso de Ufos. Alguns desses mutantes estão vivos, outros não.

Um deles, neste momento, nos deixou. Seu nome é Fernando Machado Silveira Neto. Deve estar chegando à sua pátria, muito distante daqui.



quarta-feira, 9 de abril de 2014



FRANCISCA HELENA


         Era sexta feira. Estava em reunião dançante da Faculdade de Odontologia. Após reforçar minha coragem com algumas cuba libres, fui tirar para dançar uma moça que era a cara da Jeanne Moreau.

         Jeanne Moreau tinha aparência seriíssima. Olhava-me como carregasse todas as tragédias do mundo às costas. Com esse semblante, não me animei a lhe dirigir uma única palavra. Ela, que me olhava fixamente, também não abriu a boca.

         Ao fim da dança, ela disse a primeira frase: - Com licença...
Foi sentar, me deixando plantado na pista.

         Dei a volta por cima e fui tirar para dançar uma loira alta, muito bonita. Começamos a conversar imediatamente. Senti como se fossemos velhos conhecidos. Na verdade, ela falava bastante e eu a ouvia. Disse-me seu nome: Francisca Helena. Era um nome pitoresco.
  
         Francisca Helena disse-me que estava com uma amiga. Não estudava o que era exceção entre as pessoas presentes. Trabalhava em loja de rolamentos, na Avenida Farrapos.  Notei que ela atropelava a língua pátria com muita frequência.

         A noite correu rápida e alegre. Dançávamos, sentávamos e conversávamos. Quando elas disseram que iam para casa, me ofereci para levá-las.

         Francisca Helena deu como endereço uma rua tranquila no bairro Montserrat. Deixei as duas em um prédio de apartamentos classe média, com quatro pavimentos.

         No dia seguinte, me dei conta de minha conquista. Francisca Helena era um mulherão. Loira de olhos muito azuis, corpo perfeito, longas pernas, esguias, lembrava uma modelo de perfume francês. Tinha a questão da gramática, mas deixa para lá.

         Ela não tinha me dado número de telefone (celular não havia). Não sabia seu sobrenome nem do número do seu apartamento. Era sábado e resolvi fazer uma loucura. Fui até o edifício de Francisca Helena. A porta da frente estava aberta e comecei a bater de porta em porta, a partir do quarto pavimento, perguntando por uma loira Francisca.

         No penúltimo apartamento do segundo subsolo, fui atendido por Francisca Helena. Mandou-me entrar, apresentou-me à família, uns alemães, todos muito grandes e simpáticos. Quando contei como a encontrei, senti que a tinha ganhado. Francisca Helena passou a me tratar como cavaleiro que havia chegado montado em um corcel branco.

         Começamos a namorar. O porte de Francisca Helena me deixava envaidecido. As pessoas viravam-se quando passávamos. Para esconder sua pouca cultura, quando estávamos em turma de amigos, discretamente a interrompia, ao dar algum palpite.

         Naquela época, início dos anos sessenta, as moças não davam para os namorados como dão hoje. Isso deflagrava um jogo de sedução irresistível. Cada avanço no corpo da namorada era considerado como vitória, a ser comemorada com os amigos com muito chope. Francisca Helena, apesar de deixar beijá-la logo no início, revelou-se fortaleza inexpugnável.

         Não é que Francisca Helena não gostasse de sexo. Ela gostava muito. Seus gemidos traiam-na. Mas tinha sido criada numa moral alemã muito rígida. Teria de casar virgem.

         Esqueci de contar. Francisca Helena tinha 27 anos. Eu tinha 22. Ela era cinco anos mais velha. Utilizava esse argumento para convencê-la que, aos 27 anos, ela já era quase titia e, se não mudasse de opinião, poderia ficar assim para sempre.

         Era tudo sacanagem minha. Na verdade, não aguentava mais de tanta tesão por Francisca Helena. A diferença cultural me fazia crer que nossa relação não iria longe, o que mais me espicaçava o desejo.

         Uma ocasião, depois de umas cervejas e um presentinho bem escolhido, consegui que ela me deixasse tocar em seu peito. Muito emocionado, perguntei se havia gostado. Disse ter se sentido como uma fruta apalpada na feira.

         Não desisti, entretanto. Uma noite, houve conjunção favorável dos astros. Minha mãe viajou e nosso apartamento ficou só para mim.

         Convidei Francisca Helena para irmos até em casa, jurando solenemente que a respeitaria. Ela disse que não achava uma boa ideia e eu insistindo e insistindo. Nesse momento, ela disse algo que, definitivamente, encerrou nossa noite de sexo: “-Não vou. Cachorro que come ovelha, só matando”.

terça-feira, 8 de abril de 2014




Prezada amiga e colega


         Algum tempo atrás, estavas decepcionada com a profissão. Pensaste em largar tudo e fazer concurso para o Banco do Brasil. É uma alternativa válida. Podes tentar concurso para outras áreas.

         Passei 37 anos lutando para fazer arquitetura. É uma luta diária, na maior parte das vezes, inglória. Coloca em jogo tua saúde financeira (e da família também) e também tua saúde mental.

         Quando me formei, em 1972, estávamos no “Brasil Grande”. A ditadura militar massacrava quem se opunha a ela, mas a economia, graças a empréstimos generosos, oriundos dos petrodólares, fazia o país crescer, ao que chamamos hoje, de níveis chineses.

         Meu sonho, grandioso como de um bom leonino, era montar uma empresa de consultoria, se possível, multinacional. Pedi demissão de meu tranquilo emprego no Banco do Brasil, fiz engenharia de segurança e comecei a me preparar para fazer administração de empresas.

         Naquela época, havia tanto serviço que meu limite de produção era o meu tempo. Tinha um belo escritório na esquina da Felipe Camarão com a Oswaldo Aranha, com vista para a redenção. Contratei um arquiteto e mantinha secretária em tempo integral.

         Fazia desenvolvimento de projetos para o Banco do Brasil, residências para ex-colegas, quando obtinham financiamento imobiliário, perícias, avaliações e vistorias para o SFH. O sonho estava se realizando.

         Em 1983 faliu o BNH e, logo depois, o Brasil quebrou. Como deves saber, os empréstimos dos governos militares foram contratados com juros variáveis que, com o fim da farra dos petrodólares, foram às alturas. Isso, junto com a má administração de recursos e a anarquia que havia se instalado, levou o país para o buraco (como a imprensa era amordaçada, fiquei sabendo disso depois).

         Minha consultoria foi para as cucuias. Na época, era um pobre ingênuo. Não sabia que consultoria, no Brasil, é sinônimo de lavagem de dinheiro.

         Bom, em síntese é a história de um arquiteto no Brasil. Certamente muito parecida com a tua e de quase todos os outros arquitetos.

De vez em quando, me arrependo de ter pedido demissão do Banco do Brasil. Mas é só de vez em quando.

De maneira geral, a vida é só uma e passa muito rápida. Se não tivesse tido coragem e me aventurado, não teria essa história para te contar. Esse já é um bom motivo para ter feito o que fiz.

Vamos ao que interessa. Estudamos e estamos aqui para ganhar dinheiro. Se tivéssemos outros interesses, teríamos seguido a carreira eclesiástica ou seriamos monges na Índia.

Nascemos e vivemos neste país, que é o país do jeitinho. Hoje, praticamente, toda a família tem um arquiteto (a). No tempo do Brasil Grande, as faculdades se disseminaram e ninguém pensou em fechá-las quando veio a crise. Como somos um país de ignorantes e tolos, quando alguém necessita de um profissional arquiteto, procura um familiar, não para valorizá-lo, mas porque tem a expectativa de conseguir um trabalho de graça ou quase de graça (já tive propostas de troca de projeto por churrascos). Às vezes, alguém chega para nós e diz: "preciso que me dês uma ideia". Ideia não se dá, se  vende.

Nossos representantes em conselhos e sindicatos, via de regra, funcionários públicos ou professores de faculdades, se reúnem para medir beleza e dessorar sobre filosofia da arquitetura. Isso não enche barriga de ninguém. Vai ver se os médicos tratam a prática de medicina com discursos de boas intenções.

Minha sugestão é de que façamos como na Espanha. Lá, quando alguém precisa de um trabalho de arquiteto, vai ao sindicato deles. Recebe uma lista de profissionais aptos para fazer o serviço. Escolhe um e contrata, vê bem, pelo sindicato. Não tem o choro, tipo, “ora, somos amigos”. Feito o negócio, o profissional recebe pela tabela. Assim, dá para trabalhar.

Como disse, o Brasil é o país do jeitinho. Nós, arquitetos, levamos mais de 30 anos para termos nosso Conselho. Antes, pertencíamos à geleia geral do Confea e dos seus Creas. Agora, com o Cau, podemos fazer isso.

É só querer.


terça-feira, 1 de abril de 2014


PRIMEIRO DE ABRIL


Hoje, primeiro de abril, faz aniversário um golpe de estado que envergonhou nosso país, como nação civilizada. Nossos vizinhos sul americanos, que passaram por situação semelhante, imposta pelos Estados Unidos da América do Norte, já renegaram a infame “anistia” imposta pelos militares golpistas quando deixaram o poder. Julgaram e, em muitos casos, condenaram, a longas penas, os responsáveis que trouxeram a tristeza e a dor a milhares de famílias da América latina. Aqui neste país, por razões inexplicáveis, tudo ficou como está e assassinos e torturadores estão, gradativamente, a prestar contas apenas à justiça divina.


Assim, além de termos sofrido flagrante injustiça histórica, estamos  com nossas forças armadas, instituições  essenciais à defesa do país, totalmente desmoralizadas e sucateadas. Graças à anistia, ficaram execradas por conta de criminosos que se acobertaram na instituição para delinquir. Uma instituição, cuja função é apenas cumprir ações políticas, virou agente político, tornando-se réu moral de um crime.

terça-feira, 25 de março de 2014




O HOMEM DO PLANETA X

         Estávamos em 1952. Eu já tinha nove anos. Foi nesse ano que passou, no Cine Glória, o filme “O Homem do Planeta X”. Fissurado por ficção científica, me programei para ir ao cinema. Foi um choque quando disseram ser o filme proibido até 14 anos. Logo eu, que já sabia tudo sobre a vida.

         Planejei meticulosamente romper a censura etária. Levava uma vantagem inicial. Meu pai era médico de seu Ivoni (y?) e de toda sua família. E seu Ivoni era o gerente do Cine Glória. Meu pai não cobrava do seu Ivoni e nós não pagávamos cinema.

         O problema era que seu Ivoni era duro na queda. Ficava na portaria, de fiscal do porteiro, e não deixava passar nenhum menor. Mais tarde, quando passou “Rock Around the Clock”, com Bill Halley, seu Ivoni ameaçou a todos na plateia: se fizessem baderna, ele interromperia o filme. “Rock Around the Clock” foi assistido em silêncio, provavelmente caso único no Brasil e no mundo.

         Contratei um intermediário para saber se teria chance. Seu Ivoni respondeu na hora. Não teria.

         Assim, não vi “O Homem do Planeta X”. Mais tarde, apareceu no bazar de seu Kaiser (a casa de esquina no meio da quadra), uma versão quadrinizada do “Homem do Planeta X”. Comprei, mas não foi a mesma coisa, não havia a emoção do escurinho do cinema.

         Guardei por sessenta e um anos esse trauma. Talvez, se tivesse trazido o assunto para meu tratamento, os anos de análise tivessem se reduzido consideravelmente.

         Agora, em plena era de Internet, me lembrei deste episódio marcante da minha infância. Procurei o “Homem do Planeta X”. Não, é que ele estava lá, me esperando? Aguardo, com o coração na mão, que ele baixe.

         Para quem quiser ser solidário. O filme está no seguinte endereço: 


As legendas estão em:


         Só para concluir. Não perdi o “Monstro da Lagoa Negra” nem “O Planeta Proibido”. Eles eram censura livre.



quinta-feira, 20 de março de 2014



NINFOMANÍACA

         Quase 40 anos atrás, jovem analista, cuidei de um hipocondríaco delirante. Ao longo do tratamento, eu sentia uma certa admiração pela coragem de meu paciente. Sem parar, sem recuar, sem hesitar diante de inúmeros incômodos, ele procurava algo que acreditava estar no âmago de seu próprio corpo; se ele encontrasse esse “algo”, a verdade de seu ser seria então revelada – a ele mesmo, a mim e ao mundo.

         Por sorte (dele e minha) ele se entregava menos a operações invasivas do que endoscopias e radiografias; dizia que procurava uma mancha, que os médicos não viam, mas que “estava lá”.

         Essas investigações pareciam ser apenas mais um momento numa longa história; nossa cultura sempre tentou encontrar, nos corpos, o lugar onde se esconderia a alma – com pesquisas anatômicas ou inventando disciplinas e práticas que querem dobrar o corpo e obrigá-lo a cuspir nossa verdade.

         A privação dos ascéticos, que mortificam os sentidos; o isolamento dos anacoretas, que fogem de qualquer comércio social; a imobilidade dos estilitas, que passavam a vida no alto de uma coluna; a penitência dos que guardam jejum; a dor dos que se açoitam impiedosamente: são esforços para levar o corpo a mostrar a alma.

         É como se existisse, em nossa cultura, uma raiva contra o corpo pelo tanto que ele mentiria, que ele nos afastaria de nossa verdade.

         De saco para mala: o primeiro roqueiro a destruir sua guitarra foi Pete Townshend, do The Who. A coisa virou moda. Mas destruíam seu instrumento por convicção (e não só para tirar uma foto) destruíam por quê? Talvez a destruição fosse o jeito de forçar o instrumento a tocar a música que eles imaginavam, que eles queriam, mas que estava além dos limites deles e de sua guitarra.

         Pois bem, alguns humanos se relacionam com seu corpo como o roqueiro com a guitarra que ele destrói: eles estão dispostos a submeter seu corpo a qualquer prova que toque a música esperada.

         Pensei nessas procuras espirituais e musicais quando assisti “Ninfomaníaca – Volume 1”, de Lars Von Trier. Esperava que o “Volume 2” me desapontasse. Não tenho simpatia por Von Trier; não gostei de Dogville (sobretudo por causa das provocações inúteis às quais o diretor recorreu no lançamento), e me desgostaram as besteiras que Von Trier falou sobre Hitler, no último festival de Cannes. Mas confesso: amei “Melancolia”, e “Ninfomania 1 e 2” é um dos filmes mais tocantes e notáveis que eu vi na última década – além de ser uma apresentação terrivelmente fidedigna de uma experiência do sexo, que pode parecer extrema, mas não é rara. Alguns pontos (sem spoilers):

    1)    Joe, a protagonista, se define como ninfomaníaca. É um jeito de não se esconder atrás de uma patologia ou de um vício, por exemplo. Concordo com ela, mas cuidado, a hipocrisia social vai longe e “ninfomania” tampouco é uma categoria inocente. É útil ler o excelente livro de Carol Groneman, “Ninfomania” (Imago).

    2)    Se o sexo for apenas uma procura de prazeres, ele não será mais relevante que a escolha de um bom vinho ou de uma fruta madura. A dimensão trágica e espiritual do sexo aparece quando ele nos domina como um imperativo incansável que exige sacrifício e risco. O psicanalista Jacques Lacan dizia que o superego é uma ordem irresistível que nos manda gozar. Se, por qualquer razão, você estiver interessado em entender o que ele queria dizer com isso, não perca “Ninfomaníaca”.

   3)    Num momento do filme, Joe perde e quer reencontrar sua capacidade de ter orgasmos, mas cuidado: o gozo que o sexo exige de nós (e dela) não se confunde com o orgasmo. Ao contrário, para alguns (como o filme também mostra), o orgasmo estragaria o gozo.

   4)    Os grandes libertinos dos séculos 17 e 18 não procuravam prazeres (nem orgasmos - que eles estavam sempre postergando). A protagonista de Von Trier, como uma heroína de Sade, tampouco procura o prazer. Até a masturbação, para ela, é quase penosa – mais parecida com um exercício espiritual do que com uma brincadeira aprazível.

   5)    O tema de “Ninfomaníaca” é soturno, mas o diálogo entre os dois (extraordinários) atores do filme respira uma inteligência rara e especialmente bem-vinda nestes dias, em que a maioria prefere fugir do sexo pela zombaria ou pelo esculacho.

    6)    Só para concluir: sexo não é diversão. É para gente grande. 


 Fonte: Contardo Calligares, psicanalista; Folha da Tarde. Escreve`às quintas