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quinta-feira, 16 de maio de 2013



segunda-feira, 13 de maio de 2013




Editorial: Era do Carbono


Em alguns séculos, é plausível que o de número 21 se torne conhecido como o primeiro da Era do Carbono. E o marco de passagem poderá ser fixado em 10 de maio de 2013, quando a concentração de dióxido de carbono (CO2) ultrapassou 400 partes por milhão (ppm).

Isso não ocorria há 3 milhões de anos. Jamais um ser humano --além dos cerca de 7 bilhões vivos hoje-- havia respirado numa atmosfera com tal quantidade do principal gás do efeito estufa.

Nenhum deles, por certo, terá notado a diferença. O CO2 não tem cheiro nem cor e é expelido normalmente dos pulmões a cada expiração. O limite de 400 ppm é apenas simbólico --mas não arbitrário.

Nos últimos anos, as negociações internacionais sobre a mudança do clima, iniciadas há mais de duas décadas, se concentraram --e fracassaram-- em torno desse valor. Sua meta era diminuir a emissão de CO2, cuja fonte mais comum é a queima de combustíveis fósseis como derivados de petróleo, para tentar evitar que se adicionem 2°C à temperatura média da atmosfera neste século (no anterior, o acréscimo foi de 0,6°C).

A estimativa de que 400 ppm de CO2 resultarão em 2°C a mais resulta de equações ainda hoje em debate. Não se exclui que o aquecimento seja menor, ou mais lento, porque se conhece mal o papel de alguns fatores naturais, como o comportamento dos oceanos.
Não se discute mais, contudo, se há de fato aquecimento. Em 2012, a temperatura ficou 0,45°C acima da média de 14°C registrada no período 1961-1990. Foi o nono ano mais quente registrado desde 1850 e o 27º consecutivo acima da média.

O gelo sobre a Groenlândia e o oceano Ártico bateu recordes de diminuição no verão de 2012 no hemisfério Norte. Não está, porém, na elevação do nível do mar que o degelo da primeira pode causar a maior de nossas preocupações.

Mais temidos são os efeitos regionais sobre o clima, como invernos mais rigorosos na Europa, secas mais devastadoras no Nordeste do Brasil e na Austrália e furacões mais intensos no Caribe --como se viu em 2012. Cresce a convicção de que se preparar para o estresse climático pode ser mais eficaz que tentar deter o aquecimento.

A diminuição das emissões de CO2 só poderia ser obtida de duas maneiras, ambas improváveis: redução drástica do crescimento populacional ou revolução no sistema energético, com rápido abandono dos combustíveis fósseis.

Não há clima para isso. Os combustíveis fósseis ganham espaço, em lugar de perder, com a exploração rentável do gás de xisto (EUA), do óleo de areias betuminosas (Canadá) e do pré-sal (Brasil).

Com o mundo rico em crise e o emergente entrevendo aí a oportunidade de acelerar o desenvolvimento, ninguém tem incentivos para prescindir das alternativas energéticas mais baratas --e sujas.

Na Era do Carbono, a humanidade terá de exceder-se em outra especialidade sua que não a de alterar o ambiente em escala planetária: adaptar-se a ele, a todo custo.

Folha de São Paulo
13/05/2013 - 03h00







Rogério Cezar de Cerqueira Leite: O poder do pré-sal

Tendências / DebatesNão há, tanto para o cientista como para o cidadão comum, momento de maior triunfo e júbilo quanto aquele em que, após anos de especulação e incertezas, encontra, finalmente, a resposta a uma pergunta que o inquieta e até o atormenta.

A pergunta é simples: como pôde o Brasil optar pela aventura do petróleo do pré-sal em detrimento da certeza do etanol de cana de açúcar? Essa pergunta pode ser subdividida em vários quesitos:

1. Como pôde um governo que se pretende socialista preferir uma opção intensiva em capital em detrimento de outra que absorveria parcela da crescente mão de obra característica de um país emergente?

2. Como se justifica a escolha de uma tecnologia ainda em desenvolvimento e de resultado incerto sobre outra já comprovada e com previsível aumento de produtividade?

3. Como foi que um país com sérias limitações de recursos financeiros se permite uma escolha em que o investimento para a produção de um combustível é pelo menos três vezes maior que outra com resultados concretos equivalentes?

4. Como é que um país com desenvolvimento econômico tão heterogêneo pôde optar por um empreendimento que acentuará as diferenças regionais a outro que necessariamente produziria uma redistribuição regional de renda?

5. Como é que se justifica a opção por um combustível que terá não somente custos de produção bastante maiores, mas ainda uma duração limitada sobre outro que é renovável e portanto de duração infinita?

6. E por que optar por uma alternativa com elevados investimentos públicos sobre outra concentrada na iniciativa privada?

7. E, enfim e principalmente, como pôde este país, que é um baluarte e paradigma mundial de ambientalismo preservacionista, escolher um combustível que é uma ameaça à poluição local e uma decisiva contribuição para o aquecimento global, e isso em detrimento daquele que é o combustível ideal sob esses dois aspectos?

Mas, eis que algumas pistas se apresentam. A primeira é fornecida pelo ex-presidente da Petrobras e agora seu porta-voz, José Sérgio Gabrielli. Diz ele que são 120 as universidades e institutos de pesquisa "agraciados" com recursos da Petrobras. Ora, se o objetivo fosse a busca de conhecimentos científicos e técnicos, ter-se-ia concentrado as atividades de pesquisas em uns poucos centros.

Olhem o belo e suntuoso prédio que a Petrobras construiu para aquinhoar fãs do cinema. Olhem quantos filmes patrocinados pela Petrobras, uma orquestra sinfônica, espetáculos de teatro e de música. Suplanta o Ministério de Cultura. Sustenta modalidades olímpicas. Rivaliza com o Ministério dos Esportes. Compra refinaria nos EUA. Seria para competir com o Ministério das Relações Exteriores? Empregos a granel. E que suculentos jetons!
A Petrobras se torna assim um Estado dentro do Estado. Um poder autônomo sob controle do governo, superior a muitos partidos políticos.

Então está explicado e fico feliz, pois a escolha do pré-sal em detrimento do etanol não foi feita por estultícia, mas antes por astúcia. Não é um alívio?

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, 81, físico, é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha

quarta-feira, 8 de maio de 2013





VESPASIANO 

Para júbilo e gáudio dos amantes dos textos clássicos, segue uma carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito:

"22 de junho de 79 d.C.
 
"Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.
"Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.
"Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por “omnia saecula saeculorum”, e sempre que o olharem dirão:
'Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou'.
"Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.
"Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas.
“Vel caeco appareat” (Até um cego vê isso).
"Portanto deves construir esse estádio em Roma.
"Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase:
`Ad captandum vulgus, panem et circenses´ (Para seduzir o povo: pão e circo).
"Esperarei por ti ao lado de Júpiter."

PS.: Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito inaugurou o Coliseu com 100 dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.
A propósito de Copas e Olimpíadas ... Continua válida a pergunta de Vespasiano:
– “Onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio?”

Assim estão sendo construidos monumentais estádios em Cuiabá, Natal e Manaus, mesmo que nem haja ludopédio por esses lugares. Só para se ter uma ideia: em Cuiabá, a Arena Pantanal terá 43.600 lugares. No último campeonato de Mato Grosso a média foi inferior a 1.000 pessoas por partida. Em Recife haverá um novo Estádio, embora todos os grandes clubes locais (que são 3) já tenham o seu. Em Manaus, pior ainda: a Arena terá 47 mil lugares. No último campeonato estadual, juntando os 80 jogos, o público total foi de 37.971.
 
Vespasiano estava certo – o grande negócio é construir estádios!
 
NB.: em latim "clunis" é igual a "nádegas"

Obrigado, Marlene