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domingo, 15 de dezembro de 2013




JUVENTUDE TRANSVIADA

      O filme "Rebel Without a Cause" (1955) é um pungente drama de uma geração desencantada, no mundo pós segunda guerra mundial. No Brasil, levou o título de "Juventude Transviada". Esse epíteto pegou e passou a se referir a toda motivação juvenil que não se enquadrasse nos padrões vigentes.

         O tema do filme é a violência. Coincidentemente, seus principais atores tiveram morte violenta: James Dean morreu em um acidente de  carro,  Natalie Wood morreu afogada após cair de uma embarcação e Sal Mineo morreu esfaqueado no estacionamento do  prédio onde  morava.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013





UM NOVO OLHAR?

        A revista Cláudia, da Editora Abril, que trata de temas femininos, traz uma chamada de capa: “como se entender com o novo homem”.

        Existe algum artigo em revista masculina que trate do assunto, “como se entender com a nova mulher”? Que eu saiba, não existe. Porque, simplesmente, os homens não estão interessados em se entender com a nova mulher (ou com a velha mulher).

        Os homens estão mais interessados em entender porque o time para que torcem está em vias de rebaixamento. Também seu interesse está voltado para demonizar políticos de quem detestam.

        A revista Cláudia quer ensinar às mulheres como conquistar seus parceiros. A revista Cláudia apresenta nova versão do surrado assunto agarre seu homem, seja novo ou velho. A revista Cláudia simplesmente diz: os homens estão aí, essa é a nova receita para caçá-los.

        A revista Cláudia representa o machismo mais retrógrado e asqueroso que existe. Ela quer eternizar a mulher como objeto. Claro, agora com nova roupagem. Há um “homem novo”, precisamos de nova estratégia.

        Existe uma única realidade sobre a face da terra. As mulheres mudaram, mudaram para melhor. Estão mais independentes, mais consistentes. O homem continua o mesmo brucutu que sempre foi. No máximo, fez algumas mudanças cosméticas para não cair totalmente no ridículo.
       

        Novo homem? Só na revista Cláudia. Revista Cláudia, poupe-me. Me impressiona que alguém tenha interesse por essa baboseira.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013


OS SALVADORES DA PATRIA

         Está sendo lançada a candidatura do general Augusto Heleno para presidente do Brasil. O slogan dos apoiadores do general é “vamos endireitar este país”.

         Belas palavras. Elas nos remetem para um filme que já assistimos. Em nossa curta história republicana já tivemos vários salvadores da pátria. Os mais recentes denominam-se Jânio Quadros, Fernando Collor de Melo, Inácio Lula da Silva. Os dois primeiros propunham salvar o Brasil individualmente, como os super heróis americanos. O último trazia uma ideologia de esquerda, a da redenção dos pobres, através do bolsa família.

         Nesse interregno, também tivemos 21 anos de ditadura militar, que também propugnava, em seu início, “endireitar o Brasil”.

         Como resultou: Collor, caçador de marajas, foi apeado do poder. Jânio, aquele da vassoura, cassou-se a si próprio. Lula criou um sistema de bondades que atingiu seu esgotamento no mandato de sua  sucessora (ela, agora, esperneando, lança o Brasil em um capitalismo selvagem, com imprevisíveis resultados).

         Os militares tiveram no AI-5 o mais poderoso poder discricionário da história do Brasil. Entregaram o poder aos civis com o país em uma profunda crise econômica e total anarquia nos quartéis.

         General, o senhor tem uma irrepreensível carreira na caserna. Não deslustre seu nome. Mantenha-se augusto e fique onde é o seu lugar.

        

segunda-feira, 4 de novembro de 2013


Grécia

A paixão pela Grécia começou nos meus verdes anos, quando eu morava no Rio de Janeiro e frequentava um bar em Copacabana, cujo dono, Constantin Tsamis, era um grego de Atenas. O homem ficava feliz com minha curiosidade juvenil sobre sua terra e desfiava um rosário de relatos sobre o país.

Me falava sobre Atenas, sobre a Acrópole, o bairro de Plaka, sobre o Monte Lykavittos.

Depois, me transportava em pensamento para as ilhas gregas de nomes mágicos, como Hydra, Poros, Aegina, Creta, Thira, Rodes. Algumas eu já conhecia de nome, quando da leitura de "Solo de Clarineta", do Érico Veríssimo, onde ele até faz um poema usando apenas esses nomes misteriosos das ilhas. Aliás, os nomes gregos, por si sós, já são poesia pura...

Outro frequentador do bar, o jovem carioca Paulo Quadrado, que já estivera na Grécia, sempre ia conversar com Constantin e inflamava mais a minha imaginação com seus estórias sobre gloriosas caminhadas de mochila nos campos floridos da região macedônica da Grécia. Não confundir com o país Macedônia, na mesma região, cuja capital é Skopje.

Nessa mesma época estava passando no Rio o filme "Zorba, o Grego", de Michael Cacoyannis, um cineasta francês de origem helênica que, por sinal, faleceu recentemente.
Pronto! Foi o que bastou para que eu me enamorasse perdidamente por aquele país que já vinha me fascinando há tempos.

Que riqueza psicológica tinha o cretense Zorba, magistralmente interpretado por Anthony Quinn!

E o Alan Bates no papel do inglês incauto que cai na armadilha empresarial-existencialista de Zorba?

O que dizer de Madame Hortense, a "Bouboulina", que ganhou vida com a fantástica atriz russa Lila Kedrova?
E a trágica viúva, vivida por Irene Papas?

Em uma das cenas Bouboulina evoca o almirante Canavaro, da marinha de guerra italiana e um dos seus numerosos amantes, que fora defender a Grécia, pátria intelectual da humanidade, das garras do império otomano. "Canavaro, Canavaro mio", dizia ela...

Lord Byron, o poeta britânico, também deu sua vida na Batalha de Missolonghi, em defesa dos mesmos ideais.
Em seguida, procurei o livro que deu origem ao filme. Tratava-se do título "Alexis Zorbas", escrito por Nikos Kazantsakis, grande escritor cretense, comunista convicto.

Fiquei mesmerizado com a obra de Kasantsakis e passei a devorar tudo o que ele havia escrito. Entre outros, descobri o seu intrigante "Cristo Recrucificado" e o seu memorável e definitivo, "Testamento para El Greco". Nesse último livro ele presta contas de sua vida ao famoso pintor El Greco, seu conterrâneo e mentor intelectual, apesar de terem vivido em épocas diferentes. O pintor viveu entre 1541 e 1614, foi morar em Toledo, Espanha e tornou-se o artista favorito da corte de Felipe II. Kazantsakis nasceu em 1883 e faleceu em 1957.
Quando estive na ilha de Creta, tentei encontrar o túmulo de Kasantsakis nos cemitérios locais. Me disseram que seu corpo não havia sido aceito por nenhum dos cemitérios locais por ter sido comunista e que eu procurasse numa colina, fora da cidade.

Lá fui eu em busca do túmulo, encontrando as mesmas dificuldades que muitos enfrentaram ao tentar localizar a última morada de Federico Garcia Lorca na Espanha. Ninguem sabia de nada, ninguem queria se comprometer...

Acabei encontrando o local e prestei minha homenagem ao grande escritor, que jazia, modestamente, sob uma cruz de madeira muito simples e isolada.

Seu epitáfio: Δεν ελπίζω τίποτα. Δεν φοβούμαι τίποτα. Είμαι ελεύθερος ("Não espero nada. Não temo nada. Sou livre.")

No seu testamento ao pintor o então jovem Nikos lhe dedica, poeticamente, suas viagens de descoberta que fez pela Grécia e Itália.

A passagem grega do seu livro que mais me impressionou foi a visita que fez ao Monte Atos (Agia Oros ou Montanha Sagrada), uma república monástica, protetorado grego, que fica na Península da Calcídica.

Essa península é constituída de três pequenos cabos e fica perto de Thessaloniki (Θεσσαλονίκη), a Salônica das pregações do apóstolo Paulo, segunda cidade grega em tamanho, depois da capital, Atenas. Lá são formados, até hoje, os sacerdotes ortodoxos gregos.

Kazantsakis conta estórias incríveis sobre os monges, suas buscas pela perfeição espiritual, entremeadas de boas doses de erotismo entre eles...

No início os monges moram todos juntos no monastério. À medida que sentem a necessidade de maior aprofundamento espiritual, sobem um pouco mais a montanha sagrada e passam a morar em refúgios, onde cabem somente dois ou três deles.
Finalmente, aquele que resolve abandonar definitivamente as coisas mundanas, retira-se, sozinho, para cavernas de difícil acesso, que ficam em penhascos sobre o mar.

Depois de chegar a uma dessas cavernas o asceta não se alimenta mais, no intuito de atingir um estado de êxtase. Apenas deixam uma cesta de vime pendurada sobre o abismo, quase a flor d'água, para que algum pescador, compadecido, deposite um peixe.

Quando chegam ao auge da subnutrição acreditam que já estão leves o suficiente para flutuar e alçam voo, espatifando-se nas rochas lá em baixo.

Montes de esqueletos sobre as rochas atestam essa patética escolha, o que pude constatar, anos mais tarde.
Que coisa fascinante! Eu precisava ir a Grécia!
Isso só veio a acontecer muito tempo depois.


Em uma das minhas seis viagens a Grécia, fui conhecer o Monte Atos, com o livro de Kazantsakis debaixo do braço.
Para tanto, precisei conseguir um visto de entrada na república monástica, em seu consulado ateniense.

A coisa acontece assim: depois de uma minuciosa entrevista feita por um "papás", sacerdote cristão ortodoxo, o visto pode ser concedido ou não.

Fui questionado sobre o porquê da minha visita, como tomei conhecimento do lugar, qual a minha religião, etc.
Respondi que era um brasileiro curioso sobre costumes e religiões e estava na minha busca espiritual.
O religioso me olhou sério, depois sorriu e, finalmente, concedeu-me o tão esperado visto.

Esse salvo conduto me permitia passar uma semana no Monte Atos, comendo e dormindo de graça em qualquer um dos dez monastérios abertos à visitação.

A região abriga uns vinte e tantos monastérios, muitos em ruínas e desativados, quase todos construídos nos anos 800 DC.
Fui de ônibus de Atenas a Thessaloniki. De lá, peguei outro ônibus para a pequena cidade de Uranópolis, na divisa grega com o protetorado.

Durante a viagem, o cobrador avisou que iríamos cruzar o Canal de Xerxes, uma pequena depressão na estrada. Foi o que restou do grande canal que o rei persa Xerxes mandou abrir para isolar e derrotar os gregos que se encontravam aquartelados no braço norte da Península da Calcídica, durante a segunda Guerra Médica ou Greco Pérsica (480 AC). Com a abertura do canal resolveu, tambem, o problema de contornar o Monte Atos, com suas fortes tempestades que assolavam os navios persas.

Uma obra que durou meses para ser concluída, hoje está aterrada e os menos avisados nem percebem que estão passando por um lugar que foi um dos palcos de mudanças no curso da História.

Pernoitei em Uranópolis para pegar o barco no dia seguinte.

A noite saí para conhecer aquela cidadezinha perdida no norte da Grécia. Passei por uma igreja onde estava sendo realizado um casamento.

Resolvi entrar para presenciar um verdadeiro casamento grego.

Na igreja puxei conversa com algumas pessoas, usando as frases que decorei em grego, um pouco de inglês e mímica. Fiz entender que era do Brasil, o que provocou uma admiração estrondosa e me rendeu um convite para a festa de casamento que seguiu-se à cerimônia religiosa. Fui tratado com deferência especial, posei com os noivos e fui brindado com ouzo, retsina e outras bebidas típicas gregas. O banquete constava de comidas típicas gregas, naturalmente maravilhosas.

A entrada foi taramosalata, uma delícia feita com ovas de peixe, de cor rosada, dos deuses! Depois vieram os stifados, moussakas, souvlakis, etc.

Acabei a noite dançando, de porre, junto com os comensais. Dançamos o Sirtaki, e outras danças danças com lenço.

Fui gentilmente carregado até meu hotel e dormi sonhando com Ulisses e sua jangada. Feliz, me sentindo o mais grego dos brasileiros, o próprio Zorba...


No Monte Atos 


Na manhã seguinte, ainda de ressaca, fui cedinho tomar o barco para Karyes, o pequeno porto de entrada da republiqueta.
A viagem é encantadora. O barco viaja bem junto à costa da península, permitindo visões belíssimas das montanhas e dos vilarejos litorâneos.

Na chegada ao porto, os monges fazem uma inspeção visual nos passageiros para certificar-se de que nenhuma mulher está entrando disfarçada de homem.

O acesso só é permitido a homens e animais do sexo masculino, a fim de evitar tentações, dizem eles.
Várias vezes, mulheres desprendidas, tentaram, em vão, entrar travestidas de homem.

Acho que isso é apenas uma tradição, pois os "papás" e "calóieros" podem sair de vez em quando e ficar livres para satisfazer suas necessidades.

É bem conhecido, tambem, o comportamento liberal dos monges, que fazem vistas grossas diante dos casos de homossexualismo, prática muito comum entre os mais jovens.


Os passageiros do barco foram conduzidos ao prédio onde funcionava a administração local. Passamos por uma estalagem onde girava no espeto um enorme javali, perfumando os ares com o aroma de carne assada, entremeado de aromáticas ervas, como hortelã, basilicão e tomilho.


Depois das formalidades iniciais, fui liberado e designado para ficar no monastério Simonos Petras, a uns cinco quilômetros dali.

Acompanhado de dois rapazes gregos, tambem peregrinos, tomamos a estrada e fomos caminhando por entre árvores frutíferas, flores, verduras, borboletas, insetos.

Ao longo dos séculos as hortas e jardins extrapolaram os seus limites iniciais e tomaram conta de toda a península, transformando-a num imenso jardim do Éden.

Fomos catando nozes e avelãs pelo chão e deliciando o paladar com aquele maná.

Perguntei aos rapazes sobre sua visita e eles me disseram que muitos gregos fazem essa peregrinação para cumprir promessas ou buscar solução espiritual para diversos problemas.

Me alertaram sobre o comportamento dos monges, alguns "anômalos", devido as suas preferências sexuais.

Fomos recebidos no monastério pelo monge Stavrós, que nos ofereceu doce de morango servido numa colher de sopa e café com borra no fundo, segundo as mais puras tradições da região.

Em seguida, fomos levados aos aposentos reservados aos peregrinos, passando sob pérgolas que circundavam um pátio interno, transportando-nos definitivamente para a idade média. Me senti num cenário do filme "O Nome Da Rosa"...

Os rapazes ficaram juntos em um quarto e me colocaram em outro, com uma janela fantástica para o mar, pendurado a uns 30 m acima d'água.

As paredes do monastério devem ter uns dois metros de espessura, verdadeiras fortalezas penduradas nos penhascos, prontas a enfrentar os ventos e os ataques inimigos que aconteceram ao longo dos séculos.

Fui ao banheiro e vi que o vaso sanitário não tinha fundo, deixando avistar o mar quebrando nas rochas, lá embaixo.

Achei o máximo usar aquele vaso, fazendo pontaria nas ondas com minha munição inusitadamente fecal! Os peixes deviam fazer fila nessa hora de "délivrance" para mim e de almoço para eles. Banheiro mais ecologicamente correto não pode haver...

Na hora do almoço nos convidaram a sentar à mesa com os monges, quando foi servida uma refeição que constava de sopa de legumes, deliciosa, com muito azeite de oliva e, na sequência, sardinhas fritas. Muito pão integral para acompanhar. Sucos de frutas e café, para finalizar.

A tardinha fomos convidados a participar do culto religioso, rezado segundo a Igreja Ortodoxa Cristã, bem diferente da missa da Igreja Cristã Romana que conhecemos.

Nessa celebração estão preservados os elementos primitivos do verdadeiro culto do início da cristandade. Muito incenso, muito canto gregoriano, cerimônia pesadíssima e bela. Fiquei dentro de um espécie de confessionário de onde assisti tudo, circunspecto, muito tocado pela liturgia medieval e um pouco embriagado com tanta fumaça perfumada de alecrim e mirra. No início da noite, quando a luz natural começou a declinar, um monge, portando uma vara comprida, com uma chama na ponta, começou a acender, uma por uma, as lamparinas de azeite que pendiam das paredes das pérgolas.

Fiquei estático observando aquela cena medieval acontecendo em pleno século XX.

Isso foi em 1988. Esse pequeno enclave abriga relíquias históricas inestimáveis, como códices dedicados ao estudo da Hagiografia.

No museu, um monge de olhos bem abertos acompanha o visitante a fim de prevenir a caçada ao "souvenir", barbaridade feita por alguns turistas, que chegaram a arrancar lascas dos códices para levar às escondidas. Tamanha ignorância só envergonha a espécie humana...

Algumas vezes os monges puxavam assunto comigo para saber mais sobre o Brasil e um deles resolveu me desafiar para um embate religioso entre o cristianismo cristão e o ortodoxo. Deixei que ele fizesse a enaltação de sua religião e, como bom hóspede, concordei em tudo com ele.

Na manhã seguinte os monges foram pescar sardinhas usando barcos a remo e me convidaram a acompanhá-los.
Ficamos a alguns metros da praia e lançamos as redes, tipo tarrafas, que voltavam cheias de prateados peixinhos saltitantes. A natureza era pródiga naquele mar sagrado do Monte Atos.

A tarde fui ajudá-los na horta, onde colhemos cenouras, berinjelas, tomates, brócolis e preparamos o terreno para novos plantios. Naquela época eu já estava fazendo o meu turismo rural e ecológico, coisa que só veio a se tornar comum e muito procurada hoje em dia.

Parti do Monte Atos com pesar, pensando seriamente em dedicar-me à vida monástica.
"Quand on est jeune on a des matins triomphants", como dizia Victor Hugo.


Na volta para Atenas, mochila às costas, fui pegar carona na estrada que corta os campos floridos da macedônia grega...

Renato Pozzobon

sexta-feira, 4 de outubro de 2013



MARINA SEM GLÓRIA

Marina Silva não conseguiu viabilizar o projeto de ter seu próprio partido para concorrer à presidência da República. Segundo o TSE, não foram cumpridas, a tempo, as exigências necessárias à formação da nova agremiação partidária.

Esse fracasso deixa no ar uma indagação. Marina, que tentou criar um partido apenas para concorrer à presidência, não teve competência para isso? Ela teria competência, então, para administrar um país?

Mas vamos imaginar, só como exercício, que Marina conseguisse construir sua Rede e, com ela, candidatar-se ao cargo máximo. Vamos imaginar, também, que Marina vencesse a eleição. Ela seria nossa próxima presidente.

Na manhã seguinte ao resultado do pleito, Marina teria que procurar os líderes do PMDB, leia-se José Sarney e Renan Calheiros para conseguir governabilidade mínima. Logo após esse encontro, Marina iria reunir-se com Carlos Lupi, do PDT,  Benito Gama, do PTB,  Gilberto  Kassab, do PSD, além de outros menos votados, para  conseguir maioria para seu governo. Se tivesse bom senso, Marina iria pedir auxílio também para as lideranças do PSDB e do DEM.

É assim que as coisas funcionam em nosso país.

Lula, quando eleito, para não desestabilizar o Brasil, teve que fazer os mesmos acordos. Dilma deu continuidade à política de Lula.

Collor recusou-se a governar com o apoio do Congresso, comandado pelos partidos tradicionais. Foi apeado do governo.

Antes,  Jânio havia tentado governar o Brasil contrariando o que ele chamou de “forças  ocultas”. Precisou renunciar, deixando o país imerso em grave crise.

Mal comparando, é como alguém que quer instalar um negócio na Quinta Avenida, em Nova York. Antes de qualquer atitude, ele deve negociar proteção com a Máfia.

Sarney não precisou fazer acordos. Ele é própria Máfia.  





quinta-feira, 3 de outubro de 2013


Meus passeios com o Tenente Riograndino ou como aprendi a gostar de arroz de puta

Eu tinha seis anos e o Tenente Riograndino estava de namoro com minha prima.
O Tenente servia numa unidade da Brigada Militar em Alegrete e minha prima morava em frente, na esquina das ruas David Canabarro com Mariz e Barros.
Olhares daqui, sorrisos dali e o romance começou. Meu tio, abastado fazendeiro, fazia gosto do namoro da filha com o oficial da Brigada Militar.
Minha prima estava encantada com seu Tenente.
Eu frequentava a casa de meu tio e me tornei amigo de Riograndino, que me tratava muito bem, querendo agradar a namorada.
Até me levava para passear.
Esses convites para me levar a passear eram incentivados por minha prima, que queria um espião junto ao garboso Tenente.
Na volta eu era questionado minuciosamente sobre onde tínhamos ido, se tinha havido encontro com mulheres, etc.
O Tenente sabia disso e fez um trato comigo ou, melhor, um pacto. Coisa de homem para homem.
Se eu ficasse de bico calado e só relatasse coisas pitorescas, como bucólicos passeios sobre os trilhos da VFRGS, eu seria recompensado com sorvetes, doces e outras coisa que fazem a cabeça de uma criança.
Eu deveria esquecer todos os encontros que, fatalmente, ocorriam entre Riograndino e suas muitas admiradoras, pois o cara era elegante, bonito e bom partido.
E assim foi.
Saímos da casa de minha prima sempre num domingo pela manhã e íamos em direção aos trilhos do trem, seguindo pela rua David Canabarro.
Caminhávamos sobre a via férrea, um em cada trilho, apoiados um no braço estendido do outro. Aquilo para mim era mágico e já valia pelo passeio todo.
Eu dava asas à imaginação e me via viajando num trem azul para outras cidades, outros países.
Acho que meu desejo de conhecer o mundo, agora realizado, nasceu sobre aqueles trilhos.
Passávamos na frente do antigo 6º Regimento de Cavalaria, hoje um quartel de Engenharia do Exército.
Ao lado do quartel, à esquerda, havia uma infinidade de casinhas de madeira, alquebradas, coloridas.
Algumas eram bares, outras sempre mostravam sorridentes raparigas à janela.
Riograndino, cumprindo um cerimonial quase militar, entrava comigo no bar do Negrinho e pedia uma cerveja para si e uma gasosa para mim.
Devidamente calibrados, íamos à luta.
Entrávamos primeiro na casa da Joaquina, uma velha conhecida do meu amigo.
Eles trocavam beijos calorosos enquanto eu recebia afagos e palavras carinhosas do mulherio.
Depois, íamos até a casinha da Eva, paixão do Tenente, que nos esperava, ansiosa, usando seu melhor vestido, numa atmosfera embriagante do perfume Amor Gaúcho.
Esse perfume perdura até hoje no meu olfato evocativo.
Enquanto os amantes sumiam dentro de um quartinho, separado da sala por uma cortina berrante, eu ficava conversando as outras mulheres, que faziam de tudo para agradar aquele pequeno “freguês” precoce.
Por fim, meu amigo voltava sorridente, de banho tomado e Eva preparava o seu famoso carreteiro de linguiça, o autêntico arroz de puta.
Que perfume inolvidável exalava daquela panela!
Era um arroz molhadinho, delicioso, coberto com ovo picado e tempero verde.
Eu me deliciava e repetia duas, três vezes, debaixo dos aplausos dos comensais.
Até hoje guardo o sabor inigualável daquele arroz. O verdadeiro arroz de puta.
Algo mais ou menos parecido vim a comer em Porto Alegre, muitos anos mais tarde, no inesquecível China Gorda.
Dez anos mais tarde, quando cheguei aos 16 anos, convidei alguns amigos para ir à “zona”, como era de costume na época.
Com grande emoção os conduzi até a casinha da Eva. Eu não esqueci o caminho...
Lá estava ela, já envelhecida, cuidando apenas da contabilidade.
Eva não me reconheceu, naturalmente.
Quando eu falei que era o amigo do Tenente Riograndino, que “frequentei” sua casa quando era criança, ela desmanchou-se em lágrimas.
Lembramos com saudade “dos velhos tempos” e do velho amigo comum.
Meus amigos ficaram impressionados com meu conhecimento do baixo meretrício e eu virei autoridade no assunto.
Onde andará o Tenente Riograndino, que me “iniciou” no assunto e me fez conhecer o arroz de puta?

Só sei que ele não casou com minha prima, que acabou descobrindo tudo e rompeu relações comigo...

Renato Pozzobon